A Ucrânia, a Rússia e os Estados Unidos iniciam hoje um conjunto de negociações de paz em Abu Dhabi, numa tentativa de pôr fim à guerra que começou em 2022 e que continua a gerar forte instabilidade política e militar na Europa. O encontro, considerado histórico, surge num contexto de crescente receio internacional de que o conflito possa evoluir para uma crise de maiores proporções.

Estas conversações representam a primeira iniciativa diplomática que envolve os três países no mesmo processo negocial desde o início da invasão russa da Ucrânia. Apesar de já terem começado contactos informais, permanece a incerteza quanto à realização de reuniões diretas entre representantes de Kyiv e de Moscovo, bem como sobre o calendário e os resultados concretos do diálogo.
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Quem participa nas negociações de paz
Os Estados Unidos estão representados por Steve Witkoff, enviado especial do ex-presidente Donald Trump, e por Jared Kushner, genro do antigo chefe de Estado norte-americano. Ambos chegaram a Abu Dhabi após uma deslocação a Moscovo, onde mantiveram um encontro com o presidente russo, Vladimir Putin, numa tentativa de preparar o terreno diplomático.
À margem do Fórum Económico Mundial, em Davos, Witkoff manifestou-se confiante quanto ao avanço das negociações, afirmando acreditar que o processo se encontra numa fase decisiva. Do lado russo, participa um grupo de trabalho sobre questões de segurança, segundo a agência estatal TASS, liderado por Igor Kostyukov, diretor da agência de informações militares russa (GRU), acompanhado por altos responsáveis da defesa.
A Ucrânia enviou o seu principal negociador, Rustem Umerov, juntamente com Kyrylo Budanov, chefe de gabinete do Presidente Volodymyr Zelensky, figuras centrais na definição da estratégia política e militar de Kyiv.
Plano de paz em discussão e divergências centrais
Em cima da mesa encontra-se um plano de paz revisto em 20 pontos, elaborado conjuntamente pela Ucrânia e pelos Estados Unidos. Kyiv afirmou anteriormente concordar com cerca de 90% da proposta, mantendo reservas quanto a dois pontos considerados essenciais: a integridade territorial e as garantias de segurança contra futuras agressões russas.
A Rússia tem-se mostrado relutante em aceitar um cessar-fogo sem concessões territoriais por parte da Ucrânia. Moscovo exige que Kyiv abdique de uma parte significativa do Donbas, região estratégica no leste do país, que inclui os territórios de Donetsk e Luhansk. Atualmente, a Rússia ocupa cerca de 20% do território ucraniano reconhecido internacionalmente.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reiterou esta posição, afirmando que a retirada das forças ucranianas do Donbas é uma condição fundamental para qualquer acordo. A Ucrânia rejeita categoricamente essa exigência, defendendo que as fronteiras atuais representam uma “linha vermelha traçada com sangue”, em referência às milhares de baixas registadas desde o início do conflito.
Segurança, reconstrução e interesses económicos
Outro eixo central das negociações prende-se com as garantias de segurança a longo prazo. O Presidente Volodymyr Zelensky tem sido claro ao afirmar que a Ucrânia não aceitará desarmar-se nem reduzir as suas capacidades militares sem garantias sólidas de que a Rússia não lançará uma nova invasão no futuro.

Para além da vertente militar, as conversações abordam também a reconstrução económica do pós-guerra. Washington defende um plano de prosperidade para apoiar a recuperação da Ucrânia, fortemente afetada pela destruição de infraestruturas críticas, cidades e setores económicos essenciais.
Do lado russo, existe interesse na criação de um pacote de recuperação económica próprio, incluindo a descongelação de ativos russos sujeitos a sanções internacionais. Moscovo defende igualmente a reconstrução das áreas “afetadas pela guerra”, embora não seja claro se esta proposta inclui apenas os territórios sob controlo russo.
Perspetivas e expectativas internacionais
Steve Witkoff indicou que as discussões de natureza “militar a militar” estão a ser trabalhadas de forma intensiva e que o processo negocial se encontra reduzido a um ponto-chave ainda em aberto. Segundo o enviado norte-americano, esse ponto é considerado solucionável caso exista vontade política de ambas as partes.
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A comunidade internacional acompanha de perto estas negociações, que decorrem num momento crítico para a segurança europeia e global. Apesar do ceticismo em torno da disposição da Rússia para encerrar o conflito, o encontro em Abu Dhabi é visto como uma oportunidade diplomática relevante para reduzir as hostilidades e evitar uma escalada que possa envolver outros atores internacionais.

