Um bebé tornou-se o primeiro no Reino Unido a nascer na sequência de um transplante de útero proveniente de uma dadora falecida. Hugo Powell foi dado à luz por cesariana em dezembro, no Queen Charlotte’s and Chelsea Hospital, unidade que integra o Imperial College Healthcare NHS Trust.

O recém-nascido, que pesava 3,1 quilos à nascença, representa um caso raro na Europa, onde apenas dois episódios semelhantes tinham sido registados anteriormente, integrando também um número ainda reduzido de bebés nascidos em todo o mundo após transplante de útero de dadora falecida.
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A mãe, Grace Bell, gestora de programas na área das tecnologias de informação, nasceu com síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser (MRKH), uma condição rara que provoca ausência ou desenvolvimento incompleto do útero. Diagnosticada aos 16 anos, viu a possibilidade de engravidar tornar-se realidade apenas na casa dos 30, depois de inicialmente ter ponderado a gestação de substituição com o marido, Steve Powell.
“É simplesmente um milagre. Nunca pensei que fosse possível”, afirmou à agência Press Association, descrevendo o nascimento como o momento mais feliz da sua vida.
Programa Womb Transplant UK e avanço da medicina reprodutiva
O transplante foi realizado em 2024 por Isabel Quiroga, cirurgiã consultora e responsável clínica pela colheita de órgãos no Oxford Transplant Centre, estrutura pertencente aos Oxford University Hospitals. A intervenção cirúrgica durou cerca de sete horas.
Meses depois, Grace Bell foi submetida a tratamento de fertilidade na The Lister Fertility Clinic, também em Londres, o que permitiu concretizar a gravidez.
O bebé recebeu o nome Hugo Richard Norman Powell, partilhando o nome próprio do professor Richard Smith, diretor clínico da Womb Transplant UK e cirurgião ginecológico consultor, figura central no desenvolvimento do programa britânico de transplante uterino. O especialista descreveu o momento como emocionante, sublinhando os anos de trabalho da equipa médica para tornar o procedimento possível.

Até ao momento, a Womb Transplant UK financiou e realizou cinco transplantes de útero: dois com dadoras vivas e três com dadoras falecidas. Dois bebés já nasceram, enquanto três mulheres continuam em tratamento de fertilidade. O outro nascimento ocorreu no caso de Grace Davidson, também portadora de MRKH, que recebeu o útero da irmã mais velha.
Estima-se que, a nível mundial, entre 25 e 30 bebés tenham nascido na sequência de transplantes de útero de dadoras falecidas. Globalmente, cerca de dois terços dos transplantes deste tipo envolvem dadoras vivas, sendo o restante terço proveniente de dadoras após morte.
Doação que salva e gera vidas
Além do útero, outros cinco órgãos da dadora foram transplantados, permitindo salvar a vida de quatro pessoas. A família descreveu a decisão como um gesto de generosidade em meio à dor da perda, sublinhando que a doação proporcionou tempo, esperança e agora uma nova vida a outras famílias.
Grace Bell afirmou pensar diariamente na família da dadora, considerando que a sua bondade e altruísmo tornaram possível concretizar o sonho de ser mãe. “Não é uma doação que salva uma vida, mas é uma doação que dá vida”, declarou.
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O útero transplantado poderá ser removido após um eventual segundo filho. Caso permanecesse, a mãe teria de tomar imunossupressores durante toda a vida, medicamentos que comportam riscos quando administrados a longo prazo.
Os transplantes de útero de dadoras falecidas apenas avançam quando as famílias são especificamente questionadas sobre a possibilidade de doação deste órgão, uma prática ainda pouco comum, mas que começa a abrir novas perspetivas na medicina reprodutiva.

