Um fenómeno raro e sem precedentes foi observado por cientistas no Parque Nacional de Kibale, onde a maior comunidade conhecida de chimpanzés entrou numa espécie de “guerra civil”.

Durante décadas, cerca de 200 chimpanzés do grupo Ngogo viveram em relativa harmonia. No entanto, em 2015, começaram a surgir sinais de rutura social, culminando numa divisão interna. Parte do grupo expulsou outros membros, dando origem a duas fações distintas: os grupos Central e Ocidental.
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Inicialmente, apesar da separação, ainda existiam interações entre os dois grupos, incluindo relações sociais e partilha de território e recursos. Contudo, essa coexistência deteriorou-se progressivamente.
Escalada de violência e mortes ao longo de quatro anos
A partir de 2018, os laços remanescentes desapareceram por completo. Os chimpanzés passaram a patrulhar territórios e a realizar incursões em áreas rivais, num comportamento que os investigadores comparam a conflitos organizados.
Ao longo de quatro anos, machos do grupo Ocidental mataram sete machos adultos e 17 crias do grupo Central. Além disso, 14 chimpanzés adolescentes desapareceram sem deixar rasto, sem sinais prévios de doença, levantando suspeitas de violência adicional.
O estudo, publicado na revista científica Science, é liderado pelo primatologista Aaron Sandel, da Universidade do Texas. Segundo o investigador, este é o primeiro caso documentado em que se pode afirmar com clareza a existência de uma “guerra civil” entre chimpanzés.
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Possíveis causas e implicações para o comportamento humano
As causas exatas da rutura permanecem desconhecidas, mas os cientistas apontam para vários fatores. O crescimento da população poderá ter provocado tensões internas, contribuindo para o colapso da ordem social. A competição por alimentos e mudanças na liderança, incluindo a morte e sucessão de machos alfa, também são apontadas como possíveis razões.
Os chimpanzés são considerados os parentes vivos mais próximos dos seres humanos, apresentando comportamentos complexos como o uso de ferramentas, formação de laços afetivos, luto e episódios de violência. Estas características são transmitidas entre gerações, refletindo uma forma de cultura cumulativa rara no reino animal.
Os investigadores sublinham que comunidades de chimpanzés raramente se fragmentam — um fenómeno que pode ocorrer apenas uma vez a cada vários séculos. Por isso, este caso oferece uma oportunidade única para compreender não só o comportamento destes primatas, mas também as origens dos conflitos humanos.
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Segundo Aaron Sandel, o estudo pode ajudar a refletir sobre a importância das relações sociais na prevenção de conflitos. “Manter ligações interpessoais é essencial. Mesmo em situações de tensão, a capacidade de reconciliação pode ser determinante para preservar a paz”, concluiu.

