As receitas provenientes da exportação de alumínio por Moçambique registaram um crescimento expressivo no primeiro semestre de 2025, atingindo 702,7 milhões de dólares (595 milhões de euros), segundo dados divulgados pelo Banco de Moçambique.

A informação consta no mais recente relatório da instituição, que analisa o desempenho das exportações entre janeiro e junho de 2025, e evidencia uma subida significativa quando comparada com o mesmo período de 2024, altura em que as exportações totalizaram 479,9 milhões de dólares (406,1 milhões de euros).
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Este crescimento resulta, sobretudo, da combinação de dois fatores determinantes: o aumento do preço internacional do alumínio e o crescimento do volume exportado, que consiste principalmente em barras de alumínio produzidas no país.
O setor do alumínio em Moçambique depende quase totalmente da produção da Mozal, considerada a maior unidade industrial do país e uma das mais importantes fundições de alumínio do continente africano. Ao longo dos últimos anos, a empresa tem desempenhado um papel central na estrutura das exportações moçambicanas, contribuindo de forma significativa para o equilíbrio da balança comercial.
O aumento registado em 2025 surge, no entanto, num momento particularmente sensível para o setor, tendo em conta a anunciada suspensão da atividade da Mozal, prevista para 15 de março, devido a um impasse nas negociações relacionadas com o fornecimento de energia elétrica.
Suspensão da Mozal levanta preocupações económicas
A possível paralisação da maior indústria do país tem gerado preocupação entre analistas económicos e organizações internacionais. Num relatório recente de avaliação à economia moçambicana, aprovado em 13 de fevereiro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou que a suspensão da atividade da Mozal representa um risco relevante para as perspetivas económicas de Moçambique.
De acordo com a instituição, os riscos para a economia nacional encontram-se atualmente “fortemente inclinados para o lado negativo”, sendo a situação da Mozal um dos principais fatores de incerteza.
A importância da empresa para a economia nacional é considerável. Estima-se que a Mozal seja responsável por cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, além de representar uma fatia significativa das exportações moçambicanas.
No mesmo relatório, o FMI refere que as negociações em curso relativas às tarifas de eletricidade necessárias para manter a operação da fundição constituem um elemento adicional de risco, sobretudo devido à forte dependência energética da indústria do alumínio.
Central sindical alerta para impacto social e laboral
A eventual suspensão da atividade também tem suscitado preocupação entre as organizações sindicais, que temem um impacto significativo no mercado de trabalho e na estabilidade económica de muitas famílias.
A Organização dos Trabalhadores de Moçambique – Central Sindical (OTM-CS) alertou que a paralisação da Mozal poderá representar um verdadeiro “terramoto nacional”, tendo em conta o peso económico e social da empresa.
Segundo o secretário-geral da organização, Damião Simango, a multinacional tem um papel estruturante na economia moçambicana, contribuindo significativamente para o PIB e para o dinamismo das exportações.
“O encerramento da atividade terá efeitos imediatos e profundos, uma vez que esta indústria gera milhares de empregos diretos e indiretos e representa uma das maiores fontes de exportação do país”, afirmou o dirigente sindical.
A preocupação da central sindical surge após a empresa ter comunicado ao comité sindical a intenção de avançar com um processo de despedimento coletivo, no contexto da suspensão da atividade prevista para março.
Despedimento coletivo poderá afetar mais de mil trabalhadores
A agência Lusa noticiou anteriormente que a administração da Mozal informou os representantes dos trabalhadores sobre o início de um processo formal de consulta para despedimento coletivo, que inclui a definição de um pacote de indemnizações.
A medida surge no âmbito da preparação para a suspensão da produção, caso não seja alcançado um acordo relativamente às condições de fornecimento de energia elétrica à fundição.
Atualmente, a Mozal emprega diretamente mais de mil trabalhadores, para além de sustentar milhares de postos de trabalho indiretos em setores associados, como transporte, manutenção industrial, serviços logísticos e fornecimento de matérias-primas.
Analistas económicos alertam que qualquer redução significativa na atividade da empresa poderá ter efeitos em cadeia em várias áreas da economia, sobretudo nas regiões onde a indústria exerce maior influência económica.
Diferendo sobre energia está na origem da suspensão
A empresa australiana South32, principal acionista da Mozal, confirmou que a fundição passará para um regime de manutenção e conservação a partir de 15 de março, caso não seja possível garantir condições adequadas de fornecimento de eletricidade.
Segundo o diretor-executivo da South32, Graham Kerr, a decisão foi tomada devido à impossibilidade de assegurar um fornecimento de energia elétrica suficiente e a preços competitivos, condição considerada essencial para a viabilidade da operação.
Apesar da decisão de suspender a atividade, a empresa afirmou que continuará a dialogar com o Governo moçambicano, bem como com os principais parceiros energéticos, na tentativa de encontrar uma solução.
Entre as entidades envolvidas nas negociações estão a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), responsável por grande parte da produção elétrica do país, e a empresa energética sul-africana Eskom.
Consumo energético da Mozal é estratégico para o país
A Mozal é um dos maiores consumidores de eletricidade de Moçambique. A fundição utiliza quase metade da energia produzida no país, sendo grande parte desse fornecimento proveniente da Hidroeléctrica de Cahora Bassa.
A empresa já manifestou disponibilidade para aceitar um aumento das tarifas de eletricidade, mas argumenta que a proposta apresentada pelas autoridades moçambicanas é substancialmente superior às tarifas praticadas em outros países, o que comprometeria a competitividade da produção.
Por outro lado, o Governo moçambicano tem defendido que as condições solicitadas pela empresa poderiam colocar em risco a sustentabilidade financeira da empresa pública responsável pela produção energética.
Em 18 de agosto, o Presidente de Moçambique, Daniel Chapo, afirmou que as tarifas de energia defendidas pela Mozal poderiam levar ao colapso financeiro da Hidroeléctrica de Cahora Bassa, agravando ainda mais os desafios estruturais do setor energético nacional.
Futuro da indústria do alumínio permanece incerto
Enquanto prosseguem as negociações entre o Governo, a South32 e as empresas do setor energético, o futuro da Mozal permanece incerto. A eventual suspensão da atividade poderá representar uma mudança significativa na estrutura económica de Moçambique, particularmente no setor das exportações industriais.
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Especialistas sublinham que a resolução do impasse energético será determinante para definir o futuro da indústria do alumínio no país, bem como para preservar o impacto económico positivo que a Mozal tem mantido ao longo de mais de duas décadas de atividade.
Caso a suspensão se concretize, Moçambique poderá enfrentar uma redução relevante nas receitas de exportação e um aumento das pressões sobre o mercado de trabalho, num contexto económico já marcado por diversos desafios estruturais.

