Detido italiano por alegada caçada humana em Sarajevo

Um cidadão italiano, com cerca de 80 anos, foi detido e interrogado pelas autoridades por suspeitas de ter participado em alegadas caçadas humanas durante a guerra da Bósnia, nos anos 1990, em Sarajevo. O homem é acusado de ter pago para disparar sobre civis que tentavam fugir da cidade durante o cerco.

Um cidadão italiano
Detido italiano por alegada caçada humana em Sarajevo © AFP

Investigação aponta para turismo de guerra pago a forças sérvias

Em Novembro, o Ministério Público de Milão abriu uma investigação sobre cidadãos italianos suspeitos de integrarem o chamado “safari humano”, um esquema no qual turistas estrangeiros terão pago grandes quantias para disparar contra residentes de Sarajevo. Segundo os procuradores, os envolvidos pagavam cerca de 70 mil libras por viagens de fim de semana à cidade, organizadas com a conivência do exército sérvio-bósnio.

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De acordo com os autos do processo, os suspeitos disparavam de telhados e colinas com rifles de precisão, tendo ainda pago valores adicionais para matar crianças. Muitos dos alegados participantes teriam ligações a círculos de extrema-direita.

O homem agora detido, um camionista reformado residente numa pequena localidade próxima da fronteira italiana com a Eslovénia, terá sido identificado após se vangloriar de ter “caçado homens” em Sarajevo. Durante buscas à sua residência, a polícia apreendeu várias armas de fogo legalmente registadas, incluindo pistolas, uma espingarda e caçadeiras.

Possíveis dezenas de suspeitos e contexto histórico do cerco

Os procuradores acusam o idoso de ter causado a morte de civis indefesos — incluindo mulheres, idosos e crianças — ao disparar com armas de precisão a partir das zonas elevadas em redor da capital bósnia. As autoridades admitem que mais de uma centena de estrangeiros possam ter participado nestas viagens e não excluem novas detenções, à medida que a recolha de provas prossegue.

Testemunhos recolhidos pelo jornalista
Jornalista aponta envolvimento de cidadãos de vários países © AFP

Durante o cerco de Sarajevo, duas das principais artérias da cidade — Ulica Zmaja od Bosne e o boulevard Meša Selimović — ficaram conhecidas como “sniper alley”, devido à intensidade dos disparos. A cidade esteve privada de electricidade, gás e água durante largos períodos, agravando a situação humanitária.

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O cerco terminou em 1995, deixando um total de 13.952 mortos, dos quais 5.434 eram civis. Os antigos líderes sérvio-bósnios Radovan Karadzic e Stanislav Galic foram condenados por crimes de guerra e crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional de Haia, tendo ambos recebido penas de prisão perpétua.

Jornalista aponta envolvimento de cidadãos de vários países

Testemunhos recolhidos pelo jornalista e escritor Ezio Gavazzeni indicam que cidadãos do Reino Unido, Itália, Alemanha, França, Espanha, Estados Unidos e Canadá poderão também ter participado neste alegado turismo de homicídio. Segundo o jornalista, tratava-se de indivíduos abastados que pagavam para matar civis por diversão, escondidos nas colinas em redor da capital bósnia.

Gavazzeni afirmou ter ficado surpreendido com a falta de investigações durante décadas e manifestou a esperança de que o caso desencadeie um efeito dominó noutros países. Na sua opinião, a ausência de processos judiciais pode estar relacionada com o poder económico e a influência social dos suspeitos.

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