Ciclista de e-bike que atropelou e matou idoso no passeio evita pena de prisão

Um homem que atropelou mortalmente um veterano do exército britânico enquanto conduzia uma bicicleta elétrica no passeio foi condenado a uma pena de prisão suspensa, evitando cumprir tempo efetivo atrás das grades.

Um homem que atropelou mortalmente um veterano
Ciclista de e-bike que atropelou e matou idoso no passeio evita pena de prisão © Family handout/PA Wire

Clifford Cage, de 50 anos, residente em Rochester, no condado de Kent, circulava com a sua e-bike ao longo da City Way quando atingiu James “Jim” Blackwood, de 91 anos, no dia 6 de julho de 2023.

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O idoso, bisavô e antigo militar dos Royal Engineers, tinha acabado de colocar os contentores do lixo na rua e regressava a casa por volta das 7h da manhã quando foi atingido. De acordo com as informações apresentadas em tribunal, a bicicleta elétrica deslocava-se a cerca de 12 milhas por hora (aproximadamente 19 km/h) no momento do impacto.

As imagens de videovigilância exibidas durante o julgamento mostraram Jim Blackwood a puxar os contentores de lixo de uma forma que evidenciava a sua fragilidade física. O juiz descreveu as imagens como demonstrativas de que a vítima era claramente “idosa e frágil”, o que tornava o acidente ainda mais trágico.

Após a colisão, Cage ligou para o número de emergência 999 e informou o operador de que não tinha visto o idoso a surgir por detrás de um arbusto que se encontrava demasiado crescido. Durante a chamada, explicou que a vítima estava “mais ou menos consciente” e pediu-lhe que permanecesse deitado e imóvel enquanto aguardavam a chegada da ambulância.

Vítima sofreu lesões graves e morreu três meses após o acidente

Apesar de ter sido inicialmente assistido no local e posteriormente transportado para o hospital, Jim Blackwood sofreu graves lesões internas em consequência do atropelamento. O antigo militar acabou por morrer cerca de três meses após o acidente, devido às complicações provocadas pelos ferimentos.

Durante o julgamento, o tribunal ouviu relatos sobre o sofrimento vivido pelo idoso nos seus últimos dias de vida. Segundo o juiz Julian Smith, Blackwood passou as semanas finais acamado e completamente imóvel, enfrentando um período particularmente difícil antes de falecer.

O magistrado sublinhou que a vítima “sofreu significativamente” durante esse período, reforçando a gravidade das consequências do acidente.

Cage explicou às autoridades que decidiu circular com a bicicleta elétrica no passeio porque tinha tido anteriormente dois episódios de quase colisão enquanto pedalava numa das principais estradas da cidade. Segundo afirmou, receava pela sua própria segurança ao partilhar a via com veículos motorizados.

Além disso, declarou à polícia que não tinha consciência de que andar de bicicleta no passeio era ilegal, uma afirmação que foi analisada durante o processo judicial.

Família relata impacto emocional profundo

A morte de Jim Blackwood teve um impacto devastador na família, que descreveu em tribunal o sofrimento causado pela perda.

A filha da vítima, Christine White, explicou que o falecimento do pai provocou uma enorme dor emocional entre os familiares. Segundo relatou, a mãe tem enfrentado grandes dificuldades para lidar com a ausência do marido, com quem partilhou mais de sete décadas de vida.

“É doloroso ver a minha mãe sofrer tanto. Ela não quer estar aqui sem o parceiro de 72 anos”, afirmou Christine durante o processo.

A própria filha recordou ainda a relação muito próxima que mantinha com o pai, confessando sentir profundamente a sua ausência.

Num depoimento separado, lido perante o tribunal, Hanni Blackwood, viúva da vítima, afirmou que não passa um único dia sem pensar no marido.

Ela recordou também o percurso militar do companheiro, destacando que Jim tinha servido na Irlanda do Norte durante a sua carreira nas forças armadas. “Ele sobreviveu ao serviço militar, mas acabou por morrer à porta de casa”, referiu no testemunho.

Tribunal reconhece arrependimento, mas aponta negligência

Durante a audiência, a defesa de Clifford Cage argumentou que o arguido permaneceu no local do acidente e tentou prestar auxílio à vítima, o que demonstraria o seu caráter.

O advogado Danny Moore KC afirmou que o seu cliente é “um ser humano decente” e que a consciência de ter causado a morte de outra pessoa será algo que o acompanhará para o resto da vida.

Segundo a defesa, Cage demonstrou desde o início arrependimento genuíno pelo sucedido e cooperou com as autoridades ao longo de toda a investigação.

Contudo, o juiz Julian Smith considerou que, apesar desse arrependimento, o arguido assumiu um risco desnecessário ao circular com uma bicicleta elétrica no passeio, ignorando o perigo que essa prática representa para os peões.

De acordo com o magistrado, o acidente poderia ter sido evitado se Cage tivesse optado por circular na estrada ou tomado outras precauções.

Pena suspensa e trabalho comunitário

No final do julgamento, Clifford Cage foi condenado a 15 meses de prisão, pena que ficou suspensa por um período de dois anos. Isso significa que o arguido não terá de cumprir pena efetiva desde que respeite as condições impostas pelo tribunal durante esse período.

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Entre as medidas determinadas pelo juiz estão a realização de 15 dias de atividades de reabilitação e 180 horas de trabalho comunitário não remunerado.

Estas obrigações fazem parte do regime de acompanhamento imposto ao arguido, que terá de demonstrar cumprimento das condições estabelecidas pela justiça.

Primeiro caso deste tipo envolvendo ciclismo no passeio

O Serviço de Procuradoria da Coroa (Crown Prosecution Service – CPS) indicou que este processo representa o primeiro caso conhecido de condenação por homicídio involuntário associado à circulação de bicicleta no passeio.

O procurador Joe Pullen afirmou que o incidente evidencia claramente os riscos que esta prática pode representar para os peões, sobretudo em zonas urbanas.

Segundo explicou, o próprio arguido admitiu durante a investigação que nunca tinha refletido seriamente sobre o perigo que poderia representar para outras pessoas ao circular dessa forma.

Foi essa simples falta de reflexão que acabou por levar à morte de James”, declarou o procurador.

O caso levanta também novas preocupações sobre o aumento do uso de bicicletas elétricas em áreas urbanas e sobre a necessidade de maior consciencialização relativamente às regras de circulação e segurança para ciclistas e peões.

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