Avó morre de raiva quatro meses após arranhão de cão vadio em Marrocos

Uma mulher britânica de 59 anos morreu de raiva quatro meses depois de ter sido arranhada por um cão vadio durante férias em Marrocos. O caso está a ser analisado num inquérito judicial em Sheffield, que procura esclarecer as circunstâncias da morte e a evolução clínica da paciente.

Uma mulher britânica de 59 anos morreu
Avó morre de raiva quatro meses após arranhão de cão vadio em Marrocos © Facebook

Yvonne Ford encontrava-se numa praia no norte de África, a 10 de fevereiro de 2025, quando terá assustado um cão abandonado que a arranhou. O ferimento, embora tenha perfurado a pele, foi considerado pouco significativo pela própria, que decidiu não recorrer a cuidados médicos. Limitou-se a limpar a zona afetada com uma toalhita húmida e não recebeu qualquer vacina ou tratamento profilático.

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Durante os meses seguintes, não foram registados sinais imediatos de infeção associados ao episódio. Contudo, no final de maio, começaram a surgir sintomas progressivos, incluindo dores de cabeça intensas, náuseas, dificuldades de locomoção e episódios de desorientação.

A 2 de junho de 2025, deu entrada no Barnsley Hospital, onde foi inicialmente observada na unidade de curta duração. O seu estado clínico deteriorou-se rapidamente, passando a apresentar alucinações, níveis elevados de ansiedade e confusão mental significativa. Perante a complexidade do quadro, foi solicitada avaliação por psiquiatria.

O psiquiatra Alexander Burns explicou em tribunal que foi chamado a intervir depois de a equipa médica ter dificuldade em estabelecer um diagnóstico claro. Suspeitando inicialmente de doença de Lyme — infeção transmitida por carraças — questionou a família sobre viagens recentes ao estrangeiro. Foi então mencionada uma deslocação à Florida, mas sem relato de picadas.

Posteriormente, o marido revelou que Yvonne tinha sido arranhada por um cão vadio em Marrocos. Essa informação não constava dos registos clínicos iniciais. Face ao histórico de exposição e à sintomatologia neurológica, o médico considerou a hipótese de raiva, apesar de nunca ter acompanhado um caso semelhante ao longo da sua carreira. Após investigação clínica adicional, concluiu que todos os sintomas eram compatíveis com a doença.

Especialistas alertam para a importância da vacinação pós-exposição

Perante a suspeita confirmada, a paciente foi transferida para a unidade de doenças infeciosas do Sheffield Royal Hallamshire Hospital, onde viria a falecer a 11 de junho de 2025.

A especialista em doenças infeciosas Katharine Cartwright, dos Sheffield Teaching Hospitals, afirmou perante o júri que a raiva é fatal em 100% dos casos após o aparecimento dos sintomas clínicos. Sublinhou, no entanto, que a vacinação administrada imediatamente após a exposição ao vírus é altamente eficaz e pode prevenir o desenvolvimento da doença.

A médica explicou que o Reino Unido conseguiu eliminar a circulação endémica do vírus graças a programas de vacinação e controlo sanitário rigoroso. Desde 1946, foram registados apenas 26 casos no país, todos associados a infeções contraídas no estrangeiro.

Segundo Katharine Cartwright, os primeiros sinais de Yvonne Ford terão surgido no final de maio, o que significa que, quando procurou assistência hospitalar, já não existia qualquer intervenção capaz de alterar o desfecho. A especialista considerou que os médicos do Hospital de Barnsley atuaram de forma adequada perante um quadro clínico raro e complexo.

“O conjunto de sintomas era desafiante e pouco específico nos primeiros dias”, afirmou, acrescentando que não seria razoável esperar que a hipótese de raiva fosse considerada de imediato, dada a sua raridade no contexto britânico.

Evolução clínica e características da doença

O inquérito está também a analisar visitas anteriores a serviços de urgência em Barnsley e Wakefield, bem como consultas no médico de família realizadas em março e abril, período em que a paciente se queixou de mal-estar geral e referiu picadas de insetos. Contudo, a especialista esclareceu que essas queixas não estariam relacionadas com a infeção por raiva, uma vez que, após o início dos sintomas neurológicos, a morte ocorre habitualmente no espaço de duas semanas.

A raiva é transmitida através da saliva de mamíferos infetados, como cães, raposas e morcegos. A infeção pode ocorrer por mordedura, mas também por arranhão, caso o animal tenha lambido previamente as patas. Não existem casos documentados de transmissão entre seres humanos.

O período de incubação é variável: os sintomas podem surgir em cerca de quatro semanas, mas há registos de intervalos até três meses — e, em situações raras, de vários anos.

Entre os sinais mais característicos encontra-se a hidrofobia, ou medo de água. No caso de Yvonne Ford, este sintoma manifestou-se de forma relativamente moderada, traduzindo-se na recusa em beber líquidos e na necessidade frequente de cuspir saliva. Em quadros mais graves, os doentes podem apresentar reações violentas perante a presença de água.

Existem duas formas principais da doença: a encefalítica, associada a agitação e alterações comportamentais, e a flácida, marcada por fraqueza muscular progressiva. De acordo com o testemunho clínico, o caso apresentou características de ambas, tornando-o particularmente invulgar.

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O inquérito judicial, conduzido pela médica-legista assistente Marilyn Whittle, deverá prolongar-se por vários dias. O objetivo é apurar todos os factos clínicos e circunstanciais, bem como retirar eventuais lições em matéria de saúde pública.

As autoridades de saúde reiteram que qualquer contacto com animais potencialmente infetados, sobretudo em países onde a raiva permanece endémica, deve ser imediatamente avaliado por profissionais de saúde. A administração atempada da vacina pós-exposição continua a ser a única forma eficaz de prevenir uma doença que, uma vez sintomática, é quase sempre fatal.

1 thought on “Avó morre de raiva quatro meses após arranhão de cão vadio em Marrocos”

  1. Que tristeza, acho que o mais seguro quando sofre qualquer tipo de ataque de um animal desconhecido é já tomar a vacina antirrábica, não?

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