Viúva Negra” obrigada a vender casa após fraude

Uma mulher britânica apelidada de “Viúva Negra”, que defraudou uma idosa em quase 300 mil libras, foi obrigada por um tribunal a vender a própria habitação para indemnizar o património da vítima. Pamela Gwinnett, de 62 anos, foi condenada a seis anos de prisão por fraude e furto, na sequência de um esquema prolongado de manipulação financeira contra Joan Green, uma viúva de 89 anos descrita em tribunal como frágil, confusa e particularmente vulnerável nos últimos anos de vida.

Uma mulher britânica apelidada de “Viúva Negra”
Viúva Negra” obrigada a vender casa após fraude © Steve Allen

Na audiência realizada ao abrigo da Lei sobre o Produto do Crime (Proceeds of Crime Act), à qual a arguida também faltou, o juiz Michael Maher ordenou o confisco de 350.180,79 libras. Gwinnett dispõe de três meses para pagar o montante, prazo que poderá ser estendido para permitir a conclusão da venda da sua casa em Adlington, caso tal se revele necessário.

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O magistrado advertiu que, se o valor não for liquidado dentro do prazo estipulado, a arguida ficará sujeita a uma pena adicional de 42 meses de prisão por incumprimento. Sublinhou ainda tratar-se de um caso incomum, dado que foi possível decretar um confisco integral dos valores desviados. Segundo explicou, o montante disponível para apreensão supera mesmo a quantia inicialmente proposta, o que permitiu igualmente a emissão de uma ordem de compensação a favor do património de Joan Green.

Relação de confiança transformada em esquema de controlo e exploração financeira

Durante o julgamento, o tribunal ouviu que Gwinnett se apresentou como amiga dedicada e cuidadora da idosa, conseguindo ganhar rapidamente a sua confiança. Ao perceber que Joan Green possuía uma situação financeira confortável — resultado de uma carreira como contabilista e de investimentos prudentes feitos ao longo da vida, juntamente com o marido, antigo gestor sénior da British Aerospace — a arguida delineou um plano para assumir controlo total sobre a sua vida pessoal e financeira.

Nas palavras do juiz, Joan e o marido “trabalharam arduamente e investiram com prudência para garantir segurança na velhice”. Contudo, para a arguida, a idosa tornou-se “apenas uma fonte de rendimento a explorar até ao limite”. A estratégia passou por uma manipulação gradual, descrita como um “jogo de longo prazo”, com o objetivo de isolar a vítima da família e consolidar o controlo sobre as suas decisões.

Gwinnett acusou falsamente os familiares mais próximos de desviarem dinheiro da pensão, alimentando desconfianças e conflitos. A encenação revelou-se eficaz ao ponto de Joan lhe conceder uma procuração duradoura pouco tempo após se conhecerem, conferindo-lhe poderes para gerir contas bancárias e património.

Isolamento durante a pandemia e agravamento do estado de saúde da vítima

Com o início da pandemia de Covid-19, em março de 2020, a arguida transferiu Joan para um lar próximo da sua residência, em Adlington, alegadamente para facilitar os cuidados. Quando as restrições foram aliviadas, cerca de um ano depois, levou-a novamente para a sua casa, em Chorley.

Segundo foi relatado em tribunal, Gwinnett reforçou o controlo sobre a idosa, chegando a colocar cadeados nos portões da propriedade e a alterar o número de telefone fixo, restringindo o contacto com o exterior. O tribunal descreveu os últimos meses de vida de Joan como marcados por “períodos crescentes de desorientação e confusão”.

Em março do ano seguinte, foi declarado que a idosa já não tinha capacidade para gerir os seus assuntos financeiros, sendo suspensa a procuração atribuída à arguida. No entanto, até esse momento, Gwinnett já tinha desviado 161 mil libras. Posteriormente, abriu uma conta bancária conjunta e transferiu mais 119 mil libras para seu benefício.

O dinheiro foi utilizado para amortizar “montantes substanciais” do crédito hipotecário da própria arguida, adquirir um automóvel Audi Q2, custear refeições dispendiosas, tratamentos estéticos e aplicações de Botox.

Impacto emocional na família e fuga para Tenerife

Num depoimento de impacto apresentado em tribunal, Katherine Farrimond, enteada da vítima, afirmou que Joan passou os últimos anos convencida de que a família “a odiava” e “não queria vê-la”, consequência direta das mentiras disseminadas por Gwinnett. A família descreveu o sofrimento de assistir ao progressivo afastamento e à deterioração emocional da idosa, incapaz de compreender a manipulação de que estava a ser alvo.

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Após ser formalmente acusada de fraude e furto, Gwinnett solicitou, em abril, a alteração das condições de liberdade sob caução para viajar até Tenerife, alegando pretender espalhar as cinzas do irmão. O pedido foi recusado pelas autoridades judiciais. Ainda assim, horas depois, embarcou num voo para a ilha espanhola, onde permanece desde então.

Em outubro do ano passado, foi julgada e condenada à revelia a seis anos de prisão. Em Tenerife, ganhou a alcunha de “Viúva Negra”, numa referência à alegada proximidade com reformados abastados.

A sua defesa, representada pela advogada Abigail Holmes, indicou que a arguida tenciona recorrer das condenações por fraude e furto. Entretanto, mantém-se em vigor a ordem de confisco e compensação, que obriga à venda dos seus bens para ressarcir o património de Joan Green, encerrando um dos casos mais graves de abuso financeiro contra uma pessoa idosa julgados recentemente no Reino Unido.

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