Violência pós-eleitoral em Moçambique causa 50 mil desempregados

A violência que se seguiu às eleições gerais de 9 de outubro em Moçambique teve efeitos profundos na economia do país, segundo revela o Plano de Recuperação e Crescimento Económico (Prece). O documento indica que as manifestações provocaram a destruição de mais de 955 estabelecimentos económicos e sociais, resultando no desemprego de cerca de 50 mil pessoas, sobretudo nos sectores do comércio, serviços e pequenas indústrias.

A violência que se seguiu às eleições gerais
Violência pós-eleitoral em Moçambique causa 50 mil desempregados © AP

O Prece sublinha que a recessão técnica registada no último trimestre de 2024 e nos dois primeiros trimestres de 2025 é em grande parte justificada pelos protestos pós-eleitorais. O Produto Interno Bruto (PIB) do país passou de um crescimento “robusto” de 5,58% no terceiro trimestre de 2024 para -5,68% no último trimestre, evidenciando a paralisação parcial da economia e os despedimentos massivos registados durante este período de agitação social.

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O levantamento governamental destaca ainda que os setores mais afetados foram os pequenos negócios, lojas de comércio local e estabelecimentos de serviços urbanos, que sofreram destruição parcial ou total das suas instalações. Estes impactos refletem-se diretamente na perda de rendimento das famílias e no aumento da vulnerabilidade social.

Recuperação gradual do PIB e riscos de recessão

Apesar da recessão técnica, o Prece aponta uma recuperação gradual no início de 2025. No primeiro trimestre, a taxa de crescimento do PIB situou-se em -3,92%, enquanto no segundo trimestre passou para -0,94%, representando uma recuperação de 4,74 pontos percentuais em relação ao último trimestre de 2024.

O Governo alerta, no entanto, que se trata de uma situação frágil, na qual a economia ainda enfrenta risco de recessão plena caso não sejam implementadas medidas estratégicas de recuperação e estímulo económico. Entre as prioridades destacam-se o reforço do apoio aos pequenos e médios empresários, a criação de programas de emprego e a garantia de liquidez para os sectores mais afetados.

Plano de estímulo económico e investimentos estratégicos

Para mitigar os impactos da instabilidade política e das alterações climáticas, o Prece prevê a mobilização de 2.750 milhões de dólares (cerca de 2.350 milhões de euros) a curto e médio prazo. Estes recursos serão aplicados em projetos de infraestruturas, incentivos à produção agrícola e industrial, e medidas de proteção social, com o objetivo de estimular o consumo interno e recuperar a confiança dos investidores nacionais e internacionais.

Especialistas económicos sublinham que a intervenção do Estado é crucial para evitar que a recessão se prolongue, considerando o efeito negativo da violência sobre o investimento privado e o comércio interno, e os impactos sobre a balança comercial do país.

Tensão social e compromisso político

Moçambique viveu quase cinco meses de tensão social, com manifestações, greves e barricadas em várias cidades, especialmente Maputo, inicialmente convocadas pelo ex-candidato presidencial Venâncio Mondlane, que não reconheceu os resultados eleitorais.

Os protestos degeneraram em confrontos violentos com a polícia, provocando cerca de 400 mortos e a destruição de infraestruturas públicas e privadas. O impacto económico foi estimado em mais de 32,2 mil milhões de meticais (480 milhões de euros), segundo dados da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA).

Em 23 de março, o Presidente da República, Daniel Chapo, encontrou-se com Venâncio Mondlane, assumindo ambos o compromisso de pôr fim à violência. Desde então, a situação política estabilizou-se, permitindo a retoma gradual das atividades económicas e a reconstrução de infraestruturas danificadas.

Perspetivas e desafios para a economia moçambicana

O Prece reforça que o país enfrenta desafios significativos: recuperar o emprego perdido, restaurar o comércio local e garantir a confiança de investidores, ao mesmo tempo que combate vulnerabilidades geradas por choques climáticos e instabilidade política.

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Analistas económicos destacam que a recuperação dependerá não só do investimento público, mas também da capacidade de Moçambique em promover diálogo político, segurança social e mecanismos que minimizem o impacto de futuras crises. A experiência pós-eleitoral evidencia a importância de estabilidade política como fator determinante para a saúde económica e social do país.

O caso moçambicano serve ainda como alerta regional, mostrando como crises políticas e sociais podem ter repercussões diretas sobre a economia, afetando milhões de cidadãos e exigindo respostas rápidas e coordenadas por parte do Governo e da sociedade civil.

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