Trabalhadoras do sexo em Soho ameaçadas por trend nas redes sociais

Nos últimos cinco semanas, grupos de jovens têm perturbado a rotina de trabalhadoras do sexo em Soho, Londres, registando os incidentes para plataformas como TikTok, YouTube e Instagram. Os vídeos mostram adolescentes, com idades entre os 10 e os 20 anos, a bater nas portas, a lançar objetos e a proferir insultos contra as profissionais, enquanto filmam as situações.

grupos de jovens têm perturbado a rotina de trabalhadoras
Trabalhadoras do sexo em Soho ameaçadas por trend nas redes sociais © Getty/Metro

Sally, uma trabalhadora do sexo que atua na zona há sete anos, descreve o ambiente como “um local relativamente seguro”, até ao surgimento destes ataques. “Eles sobem as escadas a rir e a gozar, batem nas portas com tacos ou garrafas e correm pelos corredores, gritando insultos como ‘suck my cock’ e chamando-nos sujas”, conta. A violência inclui ainda tentativas de danificar câmaras de vigilância, arrancar sinais e agredir clientes que tentam entrar nos apartamentos.

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Para as profissionais, a exposição a câmaras e telemóveis aumenta o medo de terem a sua privacidade violada e de serem identificadas por amigos, familiares ou colegas. “Tenho mantido a minha vida privada por anos e não quero que todos saibam o que faço”, acrescenta Sally. O impacto económico também se faz sentir: Bella, outra trabalhadora, afirma que muitos clientes deixaram de visitar os apartamentos devido à presença constante de grupos de jovens, afetando gravemente os seus rendimentos.

Falta de proteção e desafios legais enfrentados pelas trabalhadoras

Apesar de algumas denúncias terem sido feitas à polícia, a resposta tem sido considerada insuficiente. “Quando ligamos, sentimos que somos ignoradas e que a nossa segurança não é uma prioridade”, explica Sally. Bella recorda que um agente chegou a dar-lhe o seu contacto pessoal, mas nunca respondeu às chamadas. Quando a polícia se faz presente, permanece apenas alguns minutos, sem confrontar os jovens ou impedir que continuem as agressões. Apenas os agentes comunitários mostraram intervenção concreta, afastando alguns grupos temporariamente.

Representantes do English Collective of Prostitutes alertam que os ataques têm vindo a aumentar em frequência e gravidade, afetando tanto trabalhadoras britânicas como migrantes. Niki Adams, porta-voz da organização, refere que “os ataques refletem o estigma ainda existente em torno do trabalho sexual. Quando as trabalhadoras são retratadas como indignas de direitos ou proteção, isso pode legitimar comportamentos abusivos entre alguns jovens”.

O medo constante, a ansiedade e a pressão financeira contribuem para um ambiente de stress intenso entre as profissionais. Muitas sentem-se obrigadas a alterar rotinas e a fugir imediatamente após o turno para evitar confrontos, afetando não só a sua segurança física, mas também o bem-estar psicológico.

Adams defende uma ação imediata das autoridades para garantir a segurança das mulheres e reforça a necessidade de descriminalizar o trabalho sexual, permitindo que as profissionais trabalhem em conjunto de forma segura e denunciem violência sem risco de criminalização. “É difícil imaginar que este nível de intimidação fosse tolerado se ocorresse numa residência real de um diplomata ou na casa de um membro da família real. A vida destas mulheres também importa”, sublinha.

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Além das questões de segurança, a situação evidencia a forma como a desinformação e estereótipos promovidos por certos políticos podem incentivar comportamentos hostis. A ideia errada de que todas as trabalhadoras são vítimas de tráfico ou devem ser “resgatadas” pode reforçar atitudes de intimidação e agressão, sobretudo entre jovens à procura de notoriedade nas redes sociais.

Com esta tendência de ataques amplamente divulgados online, cresce a urgência de medidas de proteção eficazes, intervenção policial consistente e políticas públicas que garantam que as trabalhadoras do sexo possam exercer a sua atividade de forma segura e digna.

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