Mortes por hantavírus geram tensão na Argentina

A Argentina voltou a estar no centro das atenções internacionais devido ao hantavírus, após a morte de três passageiros a bordo do navio de cruzeiro neerlandês MV Hondius, que partiu da Argentina com destino a Cabo Verde. As autoridades sanitárias e a Organização Mundial da Saúde (OMS) investigam agora a origem da infeção, enquanto cientistas recordam episódios históricos de transmissão entre humanos ocorridos na Patagónia.

Porto em Ushuaia
Mortes por hantavírus geram tensão na Argentina © Horacio Soria/Reuters

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O hantavírus era inicialmente conhecido por ser transmitido apenas através do contacto com roedores infetados. Contudo, há cerca de 30 anos, um surto em comunidades rurais da Patagónia permitiu documentar, pela primeira vez, a transmissão de pessoa para pessoa. Mais tarde, outro surto registado na mesma região resultou em 11 mortes, após um trabalhador rural infetado ter participado numa festa de aniversário numa pequena aldeia.

Os testes realizados aos passageiros sobreviventes do MV Hondius confirmaram a presença da variante Andes, considerada a única estirpe do hantavírus com transmissão comprovada entre humanos. Esta variante circula sobretudo em áreas da Argentina e do Chile.

Apesar da atenção mediática internacional, especialistas argentinos garantem que o país não enfrenta uma situação inédita. O infeciologista Roberto Debbag, vice-presidente da Sociedade Latino-Americana de Vacinologia, afirmou que a Argentina possui experiência consolidada no controlo da doença desde os surtos da década de 1990, altura em que a notificação de casos se tornou obrigatória.

Alterações climáticas podem favorecer aumento de casos

Desde julho do ano passado, a Argentina registou 101 casos de hantavírus e 32 mortes, números superiores aos observados em períodos epidemiológicos anteriores. Ainda assim, os especialistas sublinham que o país continua dentro da média histórica anual de cerca de 100 casos.

Segundo Raúl González Ittig, biólogo e professor da Universidade Nacional de Córdoba, o recente aumento poderá estar relacionado com alterações ambientais e climáticas. Após períodos severos de seca em 2023 e 2024, as chuvas intensificaram-se, promovendo maior cobertura vegetal e disponibilidade de alimento para os roedores, principais transmissores do vírus.

O investigador alertou ainda que o aquecimento global poderá favorecer o aparecimento de casos em regiões anteriormente não afetadas. Além disso, desequilíbrios ecológicos, como a redução de predadores naturais, podem contribuir para a proliferação dos animais portadores do vírus.

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Embora a América Latina apresente menos casos do que regiões como a Ásia e a Europa, onde se registam milhares de infeções anuais, a taxa de mortalidade no continente americano é significativamente mais elevada, podendo atingir os 50% em determinadas variantes.

Governo argentino investiga possível origem da infeção no cruzeiro

Para identificar o local onde poderá ter ocorrido a contaminação dos passageiros do MV Hondius, o Ministério da Saúde argentino iniciou uma investigação epidemiológica ao percurso realizado pelo casal neerlandês que apresentou os primeiros sintomas.

As autoridades planeiam capturar roedores ao longo do trajeto percorrido pelos turistas, que permaneceram na Argentina desde 27 de novembro, realizando viagens terrestres por várias regiões, incluindo Chile e Uruguai, antes de embarcarem em Ushuaia, a 1 de abril.

O governo argentino reforçou que ainda não existe confirmação de que a infeção tenha ocorrido no país. O Ministério da Saúde salientou também que a província da Terra do Fogo, de onde o navio partiu, não regista casos confirmados de hantavírus há três décadas.

Saída da Argentina da OMS gera críticas em plena crise sanitária

A situação ganhou também contornos políticos após o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, pedir publicamente à Argentina que reconsidere a decisão do presidente Javier Milei de abandonar a organização internacional, medida formalizada em março e alinhada com posições anteriormente defendidas por Donald Trump nos Estados Unidos.

Tedros afirmou que “os vírus não se preocupam com fronteiras nem com política” e defendeu que a cooperação internacional continua a ser essencial para enfrentar ameaças sanitárias globais.

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Para vários investigadores argentinos, os cortes orçamentais promovidos pelo governo de Javier Milei nas áreas da ciência, educação e saúde poderão comprometer a capacidade do país para responder de forma eficaz ao hantavírus e a futuras emergências epidemiológicas.

Segundo Raúl González Ittig, a Argentina dispõe de conhecimento científico e experiência acumulada para lidar com a doença, mas alertou que o combate eficaz ao vírus exige investimento contínuo em investigação e saúde pública.

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