As devastadoras cheias em Moçambique em janeiro de 2026 causaram uma tragédia sem precedentes para a família de Isaura Elevação Nuvunga, de 28 anos. Na Ilha Mariana, província de Maputo, a jovem perdeu dois filhos, dois irmãos, cinco sobrinhos e uma cunhada. Para não esquecer os acontecimentos, Isaura mantém um caderno de notas junto ao peito, onde regista todos os detalhes da tragédia e das buscas diárias pelos corpos ainda desaparecidos.

Tragédia familiar e impacto das cheias
Segundo dados provisórios, as cheias afetaram mais de 730 mil pessoas e provocaram pelo menos 23 mortes em janeiro, sendo consideradas as piores em décadas em Moçambique. A família de Isaura foi das mais atingidas, com vítimas entre os 3 e os 18 anos.
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O patriarca da família, Elevação Goliate Nuvunga, de 63 anos, recorda que tentou salvar os filhos e netos, colocando-os num barco para atravessar as áreas inundadas até Palmeira, a 100 quilómetros de Maputo. Contudo, a embarcação virou no percurso, entre lama e campos alagados, e apenas alguns membros conseguiram sobreviver, incluindo Isaura e o seu filho mais novo, de apenas 1 ano, que não seguiam no barco.
Isaura perdeu as suas filhas de 6 e 9 anos, uma irmã de 18 anos e um irmão de 13. Outros irmãos perderam, cada um, dois filhos, e um terceiro irmão perdeu um filho e a mulher. Até ao momento, quatro corpos permanecem desaparecidos, perdidos na água, no mato e entre o caniço, obrigando a família a organizar buscas diárias.
As buscas pelos corpos envolvem caminhar desde cedo, muitas vezes com água até à cintura, e utilizar barcos privados. Cada dia de busca custa 500 meticais (cerca de 7 euros), um valor que a família já quase não consegue pagar, depois de ter perdido tudo, incluindo campos agrícolas, dez vacas e outros recursos essenciais.
O caderno que guarda memórias e esperanças
O caderno de Isaura tornou-se o registro da memória da família, onde constam os nomes, idades e circunstâncias de cada morte. “Para os nossos netos saberem o que aconteceu em 2026. Mesmo que eu morra, alguém que encontre este caderno vai encontrar tudo o que nos aconteceu”, explica, emocionada, antes de iniciar mais um dia de buscas.
O sonho de Isaura de se tornar enfermeira está suspenso, enquanto se dedica a salvar memórias e a recuperar os corpos dos familiares. “Temos fé que vamos encontrar [os corpos]. E não vamos parar até encontrar”, afirma, determinada. A jovem acompanha diariamente os trabalhos de procura, muitas vezes desde as primeiras horas da manhã, enfrentando condições difíceis e arriscadas.
Resiliência e luta diária
O pai, Elevação, é a face visível da dor, procurando incansavelmente pelos corpos de filhos e netos. Apesar da exaustão e da escassez de recursos, a família mantém a esperança e organiza esforços comunitários com vizinhos para continuar as buscas. Cada corpo recuperado representa uma pequena vitória em meio à devastação.
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As autoridades moçambicanas têm priorizado a assistência às famílias afetadas pelas cheias e a mitigação dos danos gerais, não conseguindo ainda dar resposta individualizada à recuperação de todos os corpos. A situação da família Nuvunga evidencia o impacto humano das cheias em Moçambique, revelando a luta diária de quem sobrevive para preservar a memória dos que se perderam e reconstruir a vida em meio à tragédia.

