Metuge: camponeses fogem devido à circulação de insurgentes

As populações rurais do distrito de Metuge, na província moçambicana de Cabo Delgado, estão a abandonar em massa as suas terras agrícolas devido ao medo de ataques de grupos armados, no contexto do recrudescimento da insurgência armada que afeta a região há mais de oito anos. Os movimentos de supostos terroristas intensificaram-se na zona de Nanpipi, a cerca de 60 quilómetros da sede do distrito, desde o final de setembro, com episódios de sequestros e presença constante de homens armados nas matas.

As populações rurais do distrito de Metuge
Metuge: camponeses fogem devido à circulação de insurgentes © AFP

A situação não está boa, os homens estão a andar lá nas matas”, relatou uma fonte da comunidade, já a partir de Metuge, depois de abandonar o seu campo agrícola. Os camponeses de localidades como Metuge sede, Sauli, Nacuta, Walopwana, Ponto A e Matemo, que estavam a trabalhar as suas terras ou a abrir novas porções de produção agrícola, decidiram deixar as suas habitações devido ao receio de novos ataques.

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“São pessoas que já estavam a abrir novas porções de terras. Mas temos medo dos terroristas, por isso abandonamos”, lamentou outra fonte local, evidenciando o impacto direto da insegurança nas atividades económicas e de subsistência da população rural.

Travessia de insurgentes e aumento significativo de deslocados

Além das aldeias de Metuge, relatos de populações de Impiri (Metuge) e Intutupue (distrito de Ancuabe) indicam a travessia de grupos armados ao longo da Estrada Nacional 1, em direção ao norte da província. “Não dormimos, os terroristas passaram entre Impiri e Intutupue”, relatou um habitante, evidenciando o clima de tensão e medo permanente que afeta as comunidades locais.

De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), os ataques registados em agosto provocaram 44 mortos, 101 raptos — incluindo seis crianças e cinco mulheres — e afetaram 208 mil pessoas. Desde finais de setembro, quase 93 mil pessoas fugiram das províncias de Cabo Delgado e Nampula, duplicando o número de deslocados internos em poucos dias, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

O impacto da insurgência sobre a população é profundo, não apenas em termos de segurança física, mas também na economia local, com campos agrícolas abandonados e perda de meios de subsistência. Muitos camponeses enfrentam dificuldades para garantir alimentos e recursos básicos, aumentando a vulnerabilidade das famílias deslocadas.

Cabo Delgado: um conflito que persiste há oito anos

A província de Cabo Delgado, rica em gás natural, enfrenta ataques de grupos extremistas desde 5 de outubro de 2017, no distrito de Mocímboa da Praia. Ao longo destes oito anos, o Projeto ACLED contabilizou 6.257 mortos, alertando para a persistente instabilidade e insegurança na região.

O Governo moçambicano afirma continuar os esforços para garantir segurança às populações e aos bens, permitindo que as comunidades possam permanecer nos seus locais de origem em paz. O Presidente de Moçambique, Daniel Chapo, considerou os ataques recentes como “atos bárbaros” e contra a “dignidade humana”, apelando a uma resposta firme das forças de segurança e ao reforço da proteção civil.

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O contexto atual evidencia a vulnerabilidade extrema das comunidades rurais, que enfrentam ameaças constantes de raptos, pilhagens e deslocações forçadas, tornando urgente o reforço das medidas de segurança, vigilância e apoio humanitário. Especialistas alertam ainda para a necessidade de programas de assistência às famílias deslocadas, bem como de iniciativas de reconstrução agrícola e económica, para mitigar o impacto da violência sobre os meios de subsistência e garantir a estabilidade social em Cabo Delgado.

O cenário de Metuge e arredores mostra que, oito anos após os primeiros ataques, a região continua a lidar com uma crise humanitária complexa, exigindo atenção nacional e internacional para proteger as populações e promover a paz e segurança duradouras na província.

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