A humorista canadiana Claire Brosseau está a lutar judicialmente pelo direito de recorrer ao suicídio assistido, alegando sofrer há décadas de doenças mentais graves e resistentes a tratamento. A artista afirma que já tentou praticamente todas as abordagens médicas disponíveis sem sucesso e considera que “não há mais nada a tentar”.

Conhecida pelo seu trabalho no humor e pelas atuações em espetáculos, televisão e cinema, Brosseau revelou, em entrevista à BBC, que vive diariamente com um sentimento constante de medo e ansiedade extrema.
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“Abro os olhos todas as manhãs e sinto um pavor e uma ansiedade imediatos”, afirmou. A humorista acrescentou ainda que deseja “uma morte tranquila”, recusando recorrer a métodos violentos para terminar a própria vida.
Segundo o relato da própria, os problemas de saúde mental começaram ainda na adolescência. Aos 14 anos, entrou numa fase de comportamento descontrolado, marcada pelo consumo de drogas e álcool, levando os pais a procurar ajuda especializada.
Desde então, recebeu vários diagnósticos psiquiátricos, incluindo transtorno bipolar, transtorno alimentar, ansiedade, transtorno de personalidade, dependência de substâncias e ideação suicida crónica.
Tratamentos ao longo de três décadas não conseguiram melhorar estado clínico
Atualmente com 49 anos, Claire Brosseau integra um programa psiquiátrico destinado a pessoas com doenças mentais graves e persistentes que já esgotaram as opções terapêuticas convencionais.
Ao longo de mais de 30 anos, foi acompanhada por especialistas em diferentes cidades da América do Norte e submetida a múltiplos tratamentos, incluindo medicação, terapia comportamental e eletroconvulsivoterapia, conhecida como terapia por choques elétricos no cérebro.
Apesar das várias tentativas clínicas, a humorista afirma que o seu estado continua profundamente incapacitante, impedindo-a de trabalhar, sair de casa ou manter relações sociais regulares.
“Não há mais nada a tentar e estou no fim da minha vida”, declarou.
Canadá continua dividido sobre suicídio assistido para doenças mentais
O caso reacendeu o debate no Canadá sobre o acesso ao suicídio assistido para pessoas cuja única condição médica é uma doença mental.
O país é um dos poucos no mundo onde a morte medicamente assistida é legal tanto para doentes terminais como para pessoas com doenças graves e irreversíveis, mesmo quando a morte não é considerada previsível.
No entanto, a expansão da legislação para incluir pacientes com doenças psiquiátricas graves foi adiada por duas vezes pelas autoridades canadianas, devido a preocupações sobre a capacidade do sistema de saúde em avaliar adequadamente estes casos.
Claire Brosseau apresentou agora um pedido num tribunal da província de Ontário para obter uma exceção à legislação atual e conseguir autorização para recorrer ao suicídio assistido.
Humorista denuncia estigma associado às doenças mentais
A humorista considera que a exclusão de pacientes psiquiátricos do regime de morte assistida está relacionada com o estigma ainda associado às doenças mentais.
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Segundo Brosseau, existe uma tendência para considerar doenças físicas mais legítimas do que perturbações psiquiátricas graves e incapacitantes.
“Se eu tiver cancro amanhã, posso recusar o tratamento e ser elegível para o suicídio assistido”, afirmou. “Não estou a fazer campanha pela morte. Estou a fazer campanha para não ser vista como uma subcategoria da humanidade.”
Caso obtenha autorização judicial, Claire Brosseau revelou que gostaria de ter ao seu lado familiares, psiquiatras e a sua cadela Olive nos momentos finais. Ainda assim, pretende despedir-se antes do procedimento para evitar que os familiares assistam diretamente à sua morte.
Debate sobre saúde mental e dignidade continua a crescer
O caso está a gerar forte debate público no Canadá e entre especialistas em ética, saúde mental e direitos humanos, num momento em que vários países continuam divididos sobre os limites legais e morais do suicídio assistido.
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Defensores da ampliação da lei argumentam que pacientes com sofrimento psicológico extremo e irreversível devem ter acesso às mesmas escolhas disponíveis para doentes físicos. Já críticos alertam para os riscos associados à avaliação da capacidade de decisão em contextos de doença mental grave.
Enquanto o tribunal analisa o pedido de Claire Brosseau, o caso continua a colocar pressão sobre o Governo canadiano para clarificar o futuro da legislação relacionada com a morte medicamente assistida no país.

