Duas histórias distintas, separadas por décadas, voltam a expor em Portugal o impacto profundo das chamadas “terapias de conversão” da orientação sexual e identidade de género. Maria (nome fictício) e Miguel relatam experiências marcadas por sofrimento psicológico, práticas coercivas e acompanhamento clínico que visava alterar a sua identidade, num contexto que especialistas consideram cientificamente infundado e potencialmente perigoso.

Os casos surgem 36 anos depois de a homossexualidade ter deixado de ser classificada como doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS), reacendendo o debate sobre práticas ainda denunciadas por associações e profissionais de saúde.
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Infância, repressão e exorcismos no percurso de Maria
Maria, mulher trans nascida na década de 70, cresceu num ambiente familiar conservador e profundamente religioso, onde desde cedo teve contacto com doutrinas bíblicas através de uma educação rígida. Em criança, qualquer expressão associada à sua identidade de género era reprimida, sendo castigada com isolamento e punições.
Ao longo da adolescência e vida adulta, viveu uma tentativa contínua de negação da sua identidade, procurando apoio clínico na esperança de “mudar”. Acabou por ser acompanhada por um psicólogo em Lisboa que defendia abordagens espirituais associadas à identidade de género e que admitia ter poucas “conversões bem-sucedidas”.
Durante dois anos de acompanhamento, Maria foi sujeita a métodos que descreve como profundamente invasivos, incluindo exercícios psicológicos que visavam alterar a forma como se via a si própria, gerando episódios de depressão e pensamentos suicidas.
A situação agravou-se quando o acompanhamento passou também por práticas de caráter religioso, incluindo sessões em contexto de igreja evangélica. Nesses encontros, Maria relata ter sido submetida a exorcismos, em sessões coletivas e privadas, que descreve como traumáticas e associadas a episódios de perda de consciência e despersonalização.
Mais tarde, perante o agravamento do seu estado de saúde mental, acabou por ser acompanhada por uma equipa médica especializada no Hospital Júlio de Matos, onde iniciou um processo de recuperação.
Pressão familiar e tentativa de “mudar orientação sexual” no caso de Miguel
Vinte anos depois, Miguel viveu uma experiência que descreve como semelhante, apesar de num contexto diferente. Criado num ambiente religioso evangélico conservador, cresceu sem qualquer referência positiva à homossexualidade, sendo repetidamente confrontado com a ideia de que a sua orientação era “errada”.
Aos 16 anos, revelou a sua orientação sexual a um membro da comunidade religiosa, o que levou a uma reação imediata da família. Pouco depois, foi encaminhado para consultas com um psicólogo associado a práticas de inspiração religiosa, com o objetivo de identificar a origem da sua orientação sexual.
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Durante o acompanhamento, Miguel refere que as sessões se centravam em questões familiares, crenças religiosas e leitura de textos evangélicos, numa tentativa de reinterpretar a sua identidade através da fé e da dinâmica familiar.
O objetivo implícito do acompanhamento era, segundo o próprio relato, alterar a sua orientação sexual, num processo que associa a pressão psicológica e sofrimento emocional.
Especialistas alertam para riscos das “terapias de conversão”
De acordo com a Ordem dos Psicólogos e várias organizações de apoio à comunidade LGBTI+, as chamadas “terapias de conversão” baseiam-se na ideia cientificamente rejeitada de que a homossexualidade ou a identidade de género podem ser alteradas através de intervenção psicológica ou espiritual.
Especialistas alertam que estas práticas podem agravar quadros de ansiedade, depressão e risco de suicídio, especialmente em jovens expostos a ambientes familiares ou religiosos hostis.
Profissionais da área da saúde sublinham que não existe qualquer evidência científica que suporte a eficácia destas abordagens, defendendo que o foco deve ser o apoio à identidade da pessoa e não a sua tentativa de alteração.
Debate sobre proibição e proteção de pessoas LGBTI+
Os testemunhos agora divulgados voltam a colocar em cima da mesa o debate sobre a necessidade de enquadramento legal mais rigoroso destas práticas em Portugal, bem como mecanismos de proteção para pessoas em situação de vulnerabilidade.
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Organizações de defesa dos direitos humanos têm vindo a alertar para a persistência de relatos semelhantes, sobretudo em contextos familiares e religiosos, defendendo maior sensibilização e prevenção.
Enquanto o debate continua, casos como os de Maria e Miguel evidenciam o impacto duradouro destas experiências e a importância do acompanhamento psicológico baseado em evidência científica e respeito pela identidade individual.

