Consumo de antidepressivos cresce 82% em Portugal na última década

O consumo de psicofármacos registou um aumento significativo em Portugal continental ao longo da última década, com destaque para os antidepressivos, cujo crescimento atingiu os 82% entre 2015 e 2025.

O consumo de psicofármacos
Consumo de antidepressivos cresce 82% em Portugal na última década © Natacha Cardoso/Arquivo

De acordo com dados do Infarmed, avançados à agência Lusa, cerca de 80 mil embalagens de medicamentos psicofarmacológicos foram dispensadas diariamente em 2025, totalizando aproximadamente 29,4 milhões de embalagens no ano — o valor mais elevado dos últimos dez anos.

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Este aumento traduziu-se também num maior impacto financeiro para o Serviço Nacional de Saúde (SNS), cujos encargos passaram de 123,1 milhões de euros para 156,6 milhões de euros no período analisado, representando um crescimento de 24%.

No conjunto da década, as embalagens de psicofármacos aumentaram 36%, passando de 21,6 milhões para 29,4 milhões.

Antidepressivos lideram crescimento enquanto benzodiazepinas recuam

Entre as várias classes de medicamentos analisadas, os antidepressivos foram os que registaram a maior subida. O consumo passou de cerca de 7,6 milhões para 13,8 milhões de embalagens, enquanto a despesa associada aumentou 89%, de 33,7 milhões para 63,6 milhões de euros.

Os antipsicóticos também apresentaram uma evolução significativa, com um crescimento de 72% no consumo, passando de 3,2 milhões para 5,5 milhões de embalagens. Apesar disso, a despesa pública associada registou uma ligeira descida de 4,5%, situando-se nos 65,7 milhões de euros.

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Em contraciclo, as benzodiazepinas — utilizadas como ansiolíticos, sedativos e hipnóticos — apresentaram uma redução de 6,9% no consumo, descendo de 10,8 milhões para 10,1 milhões de embalagens. Ainda assim, os encargos aumentaram 13,5%, atingindo 23,4 milhões de euros.

Especialistas apontam maior diagnóstico e desafios no acesso à psicoterapia

Para especialistas em saúde mental, o aumento do consumo de psicofármacos pode refletir tanto um crescimento das situações de sofrimento psicológico como uma melhoria no diagnóstico e no acesso ao tratamento.

A psiquiatra Ana Matos Pires considera que estes dados indicam uma maior capacidade de identificação e tratamento de perturbações mentais graves, sublinhando também a evolução das práticas clínicas, com menor recurso às benzodiazepinas devido ao risco de dependência.

Já o psiquiatra Albino Oliveira-Maia alerta que o crescimento deve ser analisado à luz de fatores demográficos, como o aumento da população residente e turística, bem como da inflação e das mudanças terapêuticas.

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Ambos os especialistas destacam ainda um problema estrutural persistente: o acesso limitado à psicoterapia. Segundo referem, a dificuldade em obter acompanhamento psicológico atempado, tanto no SNS como no setor privado, leva frequentemente à prescrição de medicamentos como resposta inicial.

Também o psicólogo Miguel Ricou sublinha que a falta de acesso rápido a intervenções não farmacológicas contribui para um ciclo de medicação prolongada, dificultando a recuperação sustentada dos doentes.

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