As cheias que atingem Moçambique desde o início da época chuvosa provocaram a suspensão de 2.235 contratos de trabalho em 67 empresas na província de Gaza, uma das regiões mais afetadas no sul do país. No total, mais de um milhão de pessoas foram impactadas pelas intempéries, que já causaram 311 mortes a nível nacional.

De acordo com Ana Tombana, secretária executiva da Organização dos Trabalhadores de Moçambique — Central Sindical (OTM-CS) em Gaza, a época chuvosa 2025-2026 teve consequências profundamente negativas na vida socioeconómica da província. A responsável destacou que a paralisação das empresas deixou milhares de trabalhadores em situação de “extrema carência e desespero”, refletindo a fragilidade das condições laborais perante fenómenos extremos.
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Além da suspensão dos contratos, muitas empresas enfrentam dificuldades estruturais para retomar a atividade, devido à destruição de infraestruturas, perda de equipamentos e interrupção das cadeias de abastecimento. Este cenário agrava o desemprego e aumenta a dependência de ajuda humanitária em várias comunidades.
Agricultura devastada e denúncias de violação laboral
O setor agrícola, base de subsistência para grande parte da população, foi um dos mais atingidos pelas cheias. As inundações destruíram extensas áreas de cultivo, comprometendo não só o rendimento dos agricultores, mas também o abastecimento alimentar local e regional.
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Paralelamente aos danos provocados pelo clima, Ana Tombana denunciou a persistente violação da legislação laboral no setor privado. Entre as principais irregularidades destacam-se a ausência de assistência médica periódica, a falta de fiscalização das condições de trabalho e a inexistência de acompanhamento de doenças profissionais, sobretudo em atividades consideradas de alto risco.
Segundo a dirigente sindical, estas falhas representam uma ameaça direta à saúde dos trabalhadores. “A falta de assistência médica pode agravar doenças profissionais e comprometer a capacidade produtiva dos trabalhadores”, alertou, defendendo maior intervenção das autoridades competentes.
Números revelam dimensão da tragédia humanitária
Dados recentes do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) revelam a magnitude da crise. Desde outubro, cerca de 1,07 milhões de pessoas foram afetadas pelas chuvas intensas em todo o país. O balanço inclui 24.229 habitações parcialmente destruídas, 11.996 totalmente destruídas e 209.219 inundadas, deixando milhares de famílias em situação de vulnerabilidade.
O setor da saúde também registou impactos significativos, com 304 unidades sanitárias afetadas em menos de seis meses, dificultando o acesso a cuidados médicos essenciais num momento de elevada procura.
As cheias de janeiro, em particular, foram responsáveis por pelo menos 43 mortos, 147 feridos e nove desaparecidos, afetando mais de 715 mil pessoas. Algumas regiões do sul voltaram a registar recentemente novas inundações, agravando uma situação já considerada crítica.
Perdas agrícolas e impacto na segurança alimentar
No setor agrícola, os prejuízos são expressivos e de longo alcance. Mais de 320.426 hectares de culturas foram destruídos, afetando diretamente 373.241 agricultores. A perda destas áreas produtivas compromete a próxima época agrícola e agrava o risco de insegurança alimentar em várias regiões.
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Além disso, registou-se a morte de 531.657 animais, incluindo bovinos, caprinos e aves, o que representa um duro golpe para as economias familiares e para o setor pecuário.
Moçambique é considerado um dos países mais vulneráveis às alterações climáticas, enfrentando regularmente cheias e ciclones tropicais durante a época chuvosa, que decorre entre outubro e abril. A repetição destes eventos extremos evidencia a necessidade de reforçar políticas de adaptação climática, infraestruturas resilientes e mecanismos de proteção social para mitigar os impactos sobre as populações mais expostas.

